Autores do Viva Fortaleza: Lira Neto e Lia de Paula

Lira Neto e Lia de Paula contam, com palavras, imagens e memória, a história da transformação de Fortaleza: a cidade que cresce e se expande debaixo do asfalto, deixando para trás os costumes de cidade do interior.

Onde um dia reinaram árvores e papoulas coloridas, restara somente a vermelhidão do barro rasgado pelas máquinas, que gradativamente abriam espaço para impor o negrume do asfalto. A casa ficou isolada de tudo, em um plano superior ao da futura calçada, ilhada em uma espécie de colina artificial após as mutações radicais na topografia do terreno. Uma metáfora da solidão urbana, feita de tijolo, cal e areia.


 

De nosso alpendre, assistimos à transformação, como convidados especiais, encarapitados em um incômodo camarote. Fortaleza não era mais a mesma cidade que havíamos deixado anos atrás. Havia um certo nervosismo no ar, uma eletricidade difusa, uma inquietação que não se mostrava compatível com os cenários anteriores da infância — onde as doidas varridas como Zefinha e Papa Ova pediam esmolas e corriam atrás das crianças pelas ruas de Caucaia. Tudo agora parecia impessoal demais, agitado em demasia, com automóveis e motocicletas zunindo lá fora, perturbando-nos o juízo e o sono.

 

Lira Neto (1963)
Lira Neto nasceu em Fortaleza em 1963. Jornalista, formado pela UFC. Começou sua carreira como revisor, no jornal Diário do Nordeste. Depois passou para O Povo, onde exerceu vários cargos e funções, incluindo as de editor do Vida & Arte, repórter especial e ombudsman. Recebeu duas vezes o Prêmio Jabuti de Literatura. Atualmente escreve a biografia de Getúlio Vargas, para a Companhia das Letras. Escreveu os livros Padre Cícero: Poder, fé e guerra no sertão (Companhia das Letras, 2009); Maysa: Só numa multidão de amores (Globo, 2006); O inimigo do rei: Uma biografia de José de Alencar (Globo, 2006); Castello: A marcha para a ditadura (Contexto, 2004); A herança de Sísifo (Edições Demócrito Rocha, 2000) e O poder e a peste: A vida de Rodolfo Teófilo (Edições Demócrito Rocha,1999).

Lia de Paula (1979)
Lia de Paula é fotógrafa, natural de Fortaleza. Parte da infância e da adolescência morou na Inglaterra, onde aprendeu a fotografar e cursou Media Studies no Westminster College. Aos vinte anos, voltou para o Brasil e desde então vem se dedicando profissionalmente à fotografia. Em Fortaleza, trabalhou no jornal O Povo e na Prefeitura, participou da produção de livros e de exposições, antes de se mudar para Brasília, em 2009. Atualmente, trabalha como fotógrafa da Agência Senado e está concluindo o curso de Cinema e Novas Mídias. Em suas andanças acadêmicas, cursou sociologia, design e jornalismo, mas foi no cinema que encontrou a possibilidade de continuar a desenvolver o trabalho autoral a que vem se dedicando desde que descobriu a fotografia.

Autores do Viva Fortaleza: Natércia Pontes e Gentil Barreira

Natércia Pontes (palavras) e Gentil Barreira (imagens) assinam o capítulo Fortaleza Anoitece. Um devaneio sobre as memórias de noite e as noites da memória, observando o crepúsculo como uma paisagem mutante da cidade.

 

“A brisa bate constante e meus cabelos grossos, endurecidos pelo mar, salgam meus lábios em pequenas ricocheteadas. Eu era uma criança serelepe, de olhos vivos, sestrosa. Às vezes também introspectiva, como qualquer menino ou menina. E não tinha muita consciência da destruição. A vida parecia sempre a mesma, perene. (Vento assobiando nas esquadrias.) Ainda não havia me dado conta, tido uma consciência mais sólida, de que as coisas uma hora acabam e se transformam em outras. E isso é bom”.

 

“O tempo passa, Fortaleza amanhece e anoitece, minhas pernas esticam e agora estou no antigo Búfalo Bill, mastigando com furor uma picanha sanguinolenta, mas de olho na mousse de chocolate que virá: a melhor mousse do mundo. Na volta para casa, meu pai alto declama: Sobrinhos do Capitão! — aquela sorveteria que já era. Como também já era a sorveteria do Cinquenta Sabores, na Beira Mar e o próprio Búfalo Bill. Tantas histórias, tantas estruturas, implodidas sem dó nem piedade. (Acho que isso é uma espécie de bênção. Esse desapego com o que passou. Passou, morreu, escafedeu-se. Acho que nós fortalezenses, estamos todos olhando para frente, e se não estamos é por causa do sol.)”

 

Natércia Pontes (1980)
Natércia Pontes é cearense e tem 31 anos. É autora de Az Mulerez (edição do autor) e organizadora de Semana (Ed. Hedra). Publicou contos nos jornais Folha de S.Paulo, O Globo, O Povo, Diário do Nordeste. Escreveu para as revistas Piauí, Aldeota, Ocas, O Casulo, Cronópios, Caos Portátil, Sítio (Portugal) e outras. Desde 2001 edita o blog natercia.blogspot.com.

Gentil Barreira (1953)
Autodidata, iniciou as primeiras experiências com fotografia aos onze anos, montando um pequeno laboratório de revelação. Frequentou os cursos de Arquitetura e Urbanismo em São Paulo e Comunicação Social em Fortaleza, sem concluir. A influência dos conhecimentos nessas duas áreas marcou seu trabalho e suas pesquisas na fotografia. Atua no mercado de publicidade, moda, retratos e arquitetura, e desenvolve paralelamente trabalho autoral com foco na pesquisa documental e em estudos de luz e movimento. Realizou diversas exposições individuais e participou de importantes coletivas no Brasil e no exterior. Sua obra, diversas vezes premiada, está presente em acervos de instituições culturais e representada em livros, catálogos, revistas e sites.

Tudo pronto pra hoje à noite?

Hoje, às 19:30h, no Memorial da Cultura Cearense do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, acontece a abertura da exposição e lançamento do livro “Viva Fortaleza 1950-2010”.

Dispomos aqui impressões e sentimentos sobre uma Fortaleza que vimos crescer. Expomos ideias para refletir sobre nossa própria história nesse palco de tempos, gestos e afetos. Mais que encontrar caminhos, propomos, qual flâneur, transitar em ruas e avenidas, esquinas e praças, recuperar a memória de dias passados: um convite a perder-se entre o vivido e o esperado. De fragmentos do livro homônimo, a exposição Viva Fortaleza nos remete a uma espécie de álbum de lembranças de um lugar que escolhemos viver, reveladas em pactos secretos entre nós e a cidade.

Confira algumas imagens inéditas da exposição.

Fortaleza antes e depois

Pense em Fortaleza como você a conhecia em 2006. Agora imagine as diferenças entre as construções daquela época e de hoje. Fortaleza é uma cidade em constante transformação. São novas ruas, novos prédios, novas formas e paisagens. Seus moradores, parte do organismo vivo da metrópole, mudam junto com a arquitetura, sem perceber a magnitude das transformações estruturais de onde vivem.

Viva a Fortaleza viva

Terra da Luz Editorial lança Viva Fortaleza, livro que mostra a capital cearense da década de 1950 a 2010.

Fortaleza é uma cidade viva, que passa por transformações diárias, a céu aberto. São novas ruas, novos prédios, novas formas e paisagens. Acompanhando de perto cada mudança, a população também se mostra renovada, com outros costumes, gostos, valores e novas maneiras de ver e viver a cidade.

Em 2006 a Terra da Luz Editorial iniciou o projeto Memórias da Cidade, lançando o livro Ah, Fortaleza!, no qual apresentou a capital cearense de 1880 a 1950. Agora, em 2011, traz um novo registro de memórias. No dia 06 de dezembro lança Viva Fortaleza 1950-2010, revelando em imagens e textos a passagem dos anos de uma cidade que cresce a passos largos. O lançamento será às 19h30 no Memorial da Cultural Cearense, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Na ocasião será aberta a exposição homônima, com projeções e reproduções de fotografias do livro, ambientes e objetos (parte deles enviados pela população) que recriam o cotidiano em Fortaleza.

A nova obra tem fotografias atuais e textos de autores que conhecem bem o cotidiano de Fortaleza. Palavras e imagens dialogam entre si num encontro de linguagens, revelando as referências pessoais e as interpretações de seus autores sobre a cidade. Os textos são assinados por escritores, jornalistas e outros pensadores e remetem a aspectos históricos, culturais, sociais, arquitetônicos e afetivos. Entre eles, Paulo Linhares, Angela Gutierrez, Fausto Nilo, Lira Neto, Natércia Pontes e Demitri Túlio, juntando-se aos olhares de Gentil Barreira, Silas de Paula, Chico Gadelha, entre outros.

E, aliado as visões dos autores, temos a Fortaleza dos álbuns de fotografia e baús de recordações. Em um resgate da cidade entre as décadas de 1950 e 90, a editora recebeu fotografias e cartões-postais de fortalezenses, que abriram os acervos pessoais e sua própria história iconográfica da cidade. Esse registro é enriquecido com imagens de objetos que marcaram época, entre os quais, álbuns de família, eletrodomésticos, peças decorativas e artigos de vestuário.

O projeto Viva Fortaleza 1950-2010 é uma realização do Ministério da Cultura por meio da Terra da Luz Editorial, com patrocínio da Oi, Companhia Energética do Ceará (Coelce) e Banco do Nordeste do Brasil (BNB); e apoio cultural do Instituto Oi Futuro, Expresso Guanabara, Newland Veículos, SP Combustíveis e Sobral & Palácio Petróleo.

Serviço
Lançamento do livro Viva Fortaleza – Dia 06 de dezembro, às 19:30h, no Memorial da Cultura Cearense do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema).
Na ocasião será aberta a exposição homônima, com projeções e reproduções de fotografias do livro, ambientes e objetos (parte deles enviados pela população) que recriam o cotidiano em Fortaleza.
Info: (85) 3261.0525, 8814.4393
www.terradaluzeditorial.com.br.